Paul McCartney em Belo Horizonte

Macca

“Deve ser muito bom ser o Paul, né? Eu falo ‘uai!’ todo dia, e nunca ouvi um aplauso”. A frase, dita perto de nós no Mineirão, foi a assinatura informal do estado de euforia coletiva no show de Paul McCartney, em BH: vontade de rir, de falar bobagem à toa, de ser feliz apesar das filas, da dificuldade de conseguir comida e cerveja (depois táxis). Os fantasmas dos torcedores acostumados aos gols de Reinaldo, de Dirceu, de Dadá Maravilha devem ter achado que era noite de clássico. Todo “uai!” ou “trem bão”, ditos em perfeito mineirish accent pelo artista, eram respondidos com gritos, assobios, gente se abraçando… Não era para menos. O Pelé do pop/rock estava no mesmo ambiente que a gente. É como estar na presença de um E.T. redentor das asneiras humanas. Impossível, ou quase.

E Paul fez a parte dele: para os românticos, All My Loving, And I Love Her, a nova My Valentine (dedicada à esposa do momento, Nancy). Para os clássicos, teve Yesterday, Long and Winding Road, Paperback Writer, Get Back, Back in the USSR

Paul pequenininho, no palco, e bem mais visível no telão

Só que, desta vez, Macca ainda abriu à visitação pública seu baú de diamantes vermelhos, tocando aquelas jamais interpretadas por um beatle ao vivo. Como a canção que abriu o show, Eight Days a Week (de Beatles for Sale), ou Being for the Benefit of Mr. Kite (cantada por Lennon em Sgt. Pepper’s…).

Também surpreendeu resgatando canções do Wings menos óbvias: Listen to What The Man Said (linda, de Venus and Mars) e Junior’s Farm, que só existiu em coletânea.

A execução, perfeita como sempre. Mas, comparando com toda a energia que vi no show do Morumbi, três anos atrás, achei o velhinho cansado. No show paulista, principalmente em números como Helter Skelter (o primeiro heavy metal), não dava para acreditar que o homem lá em cima tinha 60 e muitos. Desta vez, me pareceu verossímil: Paul está para fazer 71, e soltar a voz à Little Richard do jeito que ele faz, e tocar baixo e piano por horas de rock’n’roll começam a lhe pesar na fisionomia. Ou foi coisa daquela noite só? Não estive em Goiânia para conferir.

Talvez o fim dessas turnês mundiais esteja logo ali. Talvez tenha sido a última a passar por esses trópicos. Basta ver a agenda do cara para este ano. Coisa de louco. De quem quer fazer tudo o que falta de uma vez só. O que é notícia terrível num contexto cultural – e emocional – acostumado à eternidade do beatle mais criativo e talentoso (sorry, John).

Mas, para os milhares de mineiros que fizeram coro em Hey Jude, e choraram com as imagens de George em Something, e surtaram como as adolescentes dos shows americanos dos Beatles, coisa de 50 anos atrás - e para este paulista intruso, em seu segundo show de McCartney… tudo bem! Estivemos lá. E a perenidade dessa lembrança é tão indestrutível quanto a música daqueles quatro rapazes de cabelo tigela.

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2 comments on “Paul McCartney em Belo Horizonte

  1. De fato foi inesquecível!
    Assim como ao ir para BH assistir ao show demorou para cair a ficha, quando saímos de lá parecia que tinha acordado de um sonho que permeava minha infância, minha adolescência, os tempos atuais e até o futuro. O show do Paul é repleto de emoções para nós, meros beatlemaníacos. A sensação de estar naquele lugar era a de flutuar por um lugar conhecido permeado de novas descobertas naqueles cantinhos que nunca reparamos.
    Fantástico!

    Parabéns pela coluna.

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