Kintaro – Botecagem samurai

Tofus

O hype entre os gourmands é “descobrir” pequenos tesouros gastronômicos em bibocas improváveis. Um picadinho razoável acaba ganhando fã-clube e torcida organizada se servido num pé-sujo capenga de um bairro distante. Mesmo que haja centenas de picadinhos melhores, em restaurantes mais conhecidos e bem montados.

Aí você encara a viagem, a cerveja quente, o humor bipolar do atendente, para posar de descobridor também – e, claro, contar vantagem aos amigos, que é o que interessa.

Nirá e frango à passarinho

Desconfiei que fosse um caso desses quando me apresentaram o Kintaro, na Liberdade. O botequinho é minúsculo, um corredor só, com um balcão e uma ou outra mesinha no fundo. Se um gordinho estiver acomodado ao balcão, você tem de encolher a barriga para passar pelo corredor. Tudo muito modesto, e olhando de fora dá a impressão de ser só mais um entre tantos botecos de ovo colorido e salsicha de ontem.

Só que não. Durante o dia é quase isso, com predomínio dos salgados mais convencionais, coxinhas e pastéis bem feitos. Mas à noite a estufa de acepipes se transforma, e você se torna um explorador também: um Jacques Cousteau da botecagem samurai. E ali a cerveja é gelada, o bairro é central, e os atendentes são só simpatia: Wagner e William, dois irmãos lutadores de sumô de verdade, que dividem a paixão pelo ringue xintoísta com o dia a dia no bar. Muito bons de papo.

Sumô fighters

O boteco é família mesmo. Quem prepara os petiscos é dona Líria, a mãe deles. E é aí que a exploração vira um programa inesquecível. Tudo (sério, tudo) é uma delícia. E muito mais interessante que o menu de sempre dos botecos-chiques. Nirá com ovo, costelinha no molho de missô, carapau à vinagrete, bardana apimentada, polvo com pepino… Meus preferidos: o tempura de camarão e a berinjela no missô. É, de longe, a berinjela mais gostosa que já provei (desculpa aí, vó).

Tudo vem em tigelinhas pequenas, e você pode pedir duas variedades de gostosuras em cada tigela. De modo que é fácil, fácil, experimentar o balcão inteiro.

Para completar, os preços são camaradas, e a estante de bebidas tem saquê e shochu (destilado que pode ser à base de cevada, batata doce, trigo, arroz…). Eles só vendem o shochu em garrafa, não em doses. Mas dá para encarar em três pessoas, se você não misturar com a cerveja. Eu já cometi essa mistura, claro. Mas não me lembro do que aconteceu depois.

* * *

Raro espaço vazio no balcão

Leve cash: o boteco segue uma tradição milenar de não aceitar cartões.

Estilão: boteco de rua, mas limpinho e com alguns adereços japas. A clientela é oriental, na maioria, mas ninguém te olha feio. Uma noite, lá pela quarta dose, tive uma longa conversa com um japonês apaixonado por futebol-arte. Com shochu, todo mundo vira amigo e torce para o mesmo time.

Se vale? Vale até se você for o tipo de chato que não come nada de diferente. Alguns dos petiscos “ocidentais” continuam à noite – e são deliciosos.

Cadê? Rua Tomás Gonzaga, 57.

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3 comments on “Kintaro – Botecagem samurai

    • O Pet me disse hoje, comentando o post, que virou freguês, até acompanha as lutas do William. E que os irmãos adoram o filhinho dele, o João Miguel (Assis).

  1. Alê, fica a dica para quando estiver por aqui. Gostoso e barato. Para quem gosta de comida oriental, como eu, é uma maravilha.

    Obrigado pelo comentário.

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