Garoto enxaqueca no cinema

cabodomedo

Como é seu poder de concentração? Você lê no ônibus? O meu é muito bom, é quase o de um Buda meditando.

Pouquíssimo tempo atrás, almoçava todo dia no refeitório de uma empresa em que 90% dos empregados eram homens. Imagine a cena: refeitório pequeno, com dez marmanjos dedicados a ridicularizar outros dez, que tiveram o azar de torcer pelo time que perdeu no final de semana. Ou na quarta-feira. A comida esfriava, mas não se perdia a piada.

Pois bem, entre a Mancha Verde e a Gaviões da Fiel, ambas a plenos pulmões, eu abria um livro e só interrompia a leitura quando um silêncio repentino indicava que o horário de almoço tinha terminado. Esta abstração do que se fala e se grita ao redor me permitia saborear contos de Hemingway e Fitzgerald, poemas de Leminski e João Cabral, os desassossegos de Pessoa, as ondas de Virginia Woolf, as novenas de Osman Lins. Até Joyce, li ao lado do micro-ondas. A massa sonora e a rotina das exaltações tornavam os diálogos indistintos, e minha atenção tinha um único caminho: o das páginas dos livros.

No cinema, entretanto, não é assim. Diferentemente do refeitório da empresa, a sala de cinema é lugar em que espero silêncio e comodidade. E este meu otimismo acaba sendo minha perdição, pois o ruído é frequente – como uma unha encravada que você não tem como esquecer, mesmo que na festa do seu casamento.

Por isto, fiz uma espécie de guia mental das irritações a evitar no cinema. Talvez você discorde de algum exagero meu, ou da maioria, o que não tem importância. Cada um sabe de seus limites. Mas, se você é dos que levam a cesta de piquenique para o cinema, por favor, tenha a generosidade de não sentar ao meu lado, atrás de mim ou na minha frente. Três fileiras de distância devem bastar. E aproveite o filme a seu modo, com todo o prazer a que tem direito. Afinal, você pagou por isso.

O OÁSIS DAS PRIMEIRAS FILEIRAS
François Truffaut dizia que os verdadeiros cinéfilos sempre se sentam nas primeiras fileiras do cinema. Se for verdade, São Paulo anda carente de cinéfilos, pois as primeiras só ficam cheias em tempos de Mostra Internacional ou, extraordinariamente, em um filme do Tarantino ou da “Saga Crepúsculo” (imagino, nunca tive a curiosidade de conferir…).

Eu costumo me sentar entre as três primeiras – dependendo da sala, até a quinta ou sexta. Na sala 1 do Cine Livraria Cultura, fico sempre na primeiríssima – é o melhor lugar, disparado. O motivo principal é que gosto de ter a tela grande diante de mim. Para ver um retângulo pequeno lá longe, fico em casa, na companhia do monitor de tevê, que sai mais barato – para o bolso e para minha paz de espírito.

Quero o filme enchendo a panorâmica dos olhos, e nada mais. Como essas fileiras são menos frequentadas, há menor chance de ficar perto de um “chato de cinema”.

NARIZ ATENTO
Há cheiro de pipoca? Vou para o outro lado. Os Cinemarks (evito) americanizaram um comportamento que já existia por aqui: o de comer e beber durante o filme. A americanização apenas tornou os tamanhos dos sacos de pipoca (agora baldes) e dos copos de refrigerante suficientes para uma família inteira.

O que é péssimo, porque duram mais.

Cada membro da família tem seu próprio megacombo, da tia surda ao caçula que não para quieto (depois se assombram com os índices mundiais de obesidade…). Assim, o cheiro de manteiga da pipoca forma uma névoa sobre as cabeças, entre as cabeças e os cabelos, e o som de canudinhos sendo sugados, latinhas sendo abertas, sacos de pipoca sendo sacudidos – para melhor aproveitar o sal – invadem os ouvidos e se misturam à trilha do filme. Formam uma trilha sonora à parte. Tive uma sessão de Caché, do Michael Haneke, totalmente arruinada por um sujeito que parecia usar seu saco de balas como chocalho.

Aos que ficam surpresos com salas que proíbem a entrada com alimentos, eu pergunto: será tão sacrificante assim, ficar duas horas do dia sem comer?

CUIDADO COM AS TURMAS
Assim como nas torcidas de futebol, nas igrejas e nas manifestações na Paulista, as pessoas se soltam mais quando estão em grupos. Ficam mais cheias de si, falam mais alto, querem impressionar as demais.

No cinema, eu deixo bastante gente entrar na minha frente para então decidir sobre onde vou sentar. É a estratégia para ver onde estão os grupos de mais de três conhecidos – e me afastar.

Ter adolescentes na fileira de trás, por exemplo, é um suicídio para o espectador. Se já estou sentado, e três amigos de 14 a 17 anos se sentam atrás de mim, levanto na hora e procuro outro lugar. Ou terei a poltrona chutada por duas horas e compartilharei de informações que não deveriam me afetar – além de me tornar jurado, contra a vontade, de um concurso de quem ri mais alto.

Grupos de senhoras também são perigosíssimos, sempre incluem aquela que não entende nada do que está passando na tela – e a sua indefectível parceira: a velhinha que explica tudo.

Grupos de culturetes, então, deus que me livre… São os menos educados, tentam cortar fila na entrada, conversam o filme inteiro, atendem o celular para combinar o encontro no restaurante da moda.

* * *

A MALDIÇÃO DAS POLTRONAS NUMERADAS

Até outro dia, não era tão difícil me distanciar de um grupo de comilões ou narcisistas que não conseguem ficar quietos. Eles chegavam perto, eu ia para longe.

Mas agora os donos das salas – em sua evidente missão de desestimular o hábito de ir ao cinema – tornaram minha fuga muito mais complicada. Isso porque estão popularizando a tal da poltrona numerada: ao chegar à bilheteria, você já tem de escolher seu assento. Se você der azar com a sua escolha – por qualquer dos motivos mencionados acima –, trocar de lugar acaba implicando o risco de ouvir reclamação de um atrasado, que escolheu justamente o número para onde você migrou.

É sério. Amaldiçoo o dia em que resolveram criar essa moda nas salas de São Paulo. Os contras são muitos, mas me estenderei sobre eles outro dia.

A droga é que vai ficando inevitável ter de investir numa tela gigantesca de televisão. Algo que dê a impressão de se estar num cinema, sem que chutem a sua poltrona, mastiguem de boca aberta ao seu lado, ou coisa do tipo. E aquele canto do sofá, você sabe, é só seu. Não vai aparecer ninguém para reclamá-lo.

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8 comments on “Garoto enxaqueca no cinema

  1. Dica: a poltrona C6 é a que sempre compro no Itaú, seja qual for a sala. Bom angulo de visão, e meio distante dos falantes e chaqualhadores de pipoca.
    Semana passada, estava eu no mesmo lugar mencionado e duas senhoras sentaram atrás e começaram a falar sem parar, perguntei amistosamente se elas não haviam se enganado, pois deveriam estar num bar, ao contrário da sala escura do cinema. Me chamaram de mal educado, veja só. (hehehe)

  2. Alê, estão me perguntando aqui se você é como o Sheldon! Com seu lugar demarcado no sofá de casa! Posso contar a verdade?

    A minha pergunta para os comilões do cinema é: Não é muito mais divertido sair para jantar após a sessão a ficar se entupindo de pipoca e ficar com a mão toda engordurada? Alôoooooo!

    E não posso deixar de dizer… Nosso gosto pelas primeiras fileiras foi um dos 10 top motivadores do namoro, há 10 anos! S2

    • Desde que não comente que, dependendo do lugar no sofá, eu acabo determinando se o Palmeiras ganha ou perde uma partida… (ops!).

      O gosto pelas primeiras fileiras foi só o começo de uma série de afinidades. E desacordos que fazem a coisa toda ter ainda mais graça. Um beijo.

  3. cara, acho esse negócio de poltronas numeradas um horror, principalmente pelo motivo que vc apontou. É uma benção para os mal educados ou folgados que não querem chegar minutos antes da sessão, mas é uma tortura para quem pretende ver um filme em paz. E é inevitável: o mala vê uma luzinha acesa e senta perto, mesmo que o cinema esteja vazio.

    • Pois é, e ainda provoca filas enormes em bilheterias que antes eram tranquilas, porque soma a indecisão pela melhor poltrona às demoras já habituais. Além disso, é difícil você saber se o lugar é bom ou ruim, se não lembrar muito bem da disposição da sala. Uma primeira fileira, por exemplo, tanto pode ser excelente como estar colada numa tela alta – o que não dá para adivinhar na hora da compra. É o horror, como você disse.

  4. Eu não compartilho desse sentimento, mas sou casada com quem compartilha. Meu marido me pagaria pra ver filmes em casa, e pode acreditar por esses motivos, excluindo o da comilança. Adolescentes são ruins em geral, eu te digo, ônibus, rua, casa, escola, faculdade e CINEMA! Um inferno. .. Acho que adolescente é um bicho que além de indomável é vaidoso demais pra mim.

    • “Adolescentes são ruins em geral”… Hahahaha… Sensacional, Luciana. E o pior é que já fomos um desses seres indomáveis. Obrigado pela visita.

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