Django Livre

Django

Tem de ser muito chato para não gostar do novo filme de Quentin Tarantino. O problema é o que cada um espera de um lançamento dele. Não é o novo Pulp Fiction, nem é a renovação do bang-bang à italiana. Não é John Ford, não é Sergio Leone, não é nem Sam Peckinpah – apesar da violência estilizada. O último grande western, emblemático do fim do western como cânone cinematográfico, foi Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Porque era a praia do Clint: o lobo solitário, o grande cowboy do cinema ao lado – ou um pouco abaixo – de John Wayne.

A pegada do Tarantino é outra: filmes de autor cinéfilo, pródigos em referências, com um pé na comédia – do nerd que dá uma piscadinha para o lado a cada cena que remete a um tesouro escondido. Cinema de conhecedor, que fica claro também na escolha muito pessoal da trilha sonora.

Django Livre é um filme de aventura que ri dos filmes de aventura. Você nunca fica realmente apreensivo quanto ao destino da namorada de Django, o ex-escravo que se torna caçador de recompensas (Jamie Foxx). Ela mesma (Kerry Washington) é quase uma caricatura de princesa salva no fim da história: desmaia ao rever seu homem, arregala os olhos diante dos vilões, bate palmas quando seu salvador a liberta. Tudo de propósito, claro. Não é falta de traquejo da atriz.

E essa diversão ganha mil pontos com a química entre Christoph Waltz e os diálogos longos e espirituosos de Tarantino. O prólogo em que King Schultz (Waltz), o falso dentista, se apresenta aos mercadores de escravos segue a linha de Bastardos Inglórios, quando o nazista interpretado pelo mesmo ator (que é austríaco) dá um show de fina ironia na casa em que há judeus escondidos – sequência que valeu o merecido Oscar de coadjuvante a Waltz.

Aliás, é incrível como Tarantino, um ex-atendente de videolocadora, ficou craque na direção de atores. Não tenho a menor dúvida de que Leonardo DiCaprio tem a melhor interpretação de sua vida neste filme. Calvin Candie, seu papel, é um fazendeiro entusiasta de um tipo de luta à lá vale-tudo entre escravos. E a namorada de Django é “propriedade” dele, o que o coloca no caminho do pistoleiro.

Candie é um perverso dos pés à cabeça. Sua excitação com negros lutando tem base sexual, e sua adoração pela irmã é claramente incestuosa. Do tipo que gerava (gera?) dementes filhos de parentes próximos no sul profundo da América. Um coadjuvante daqueles que erguem o filme e chamam mais a atenção que o personagem principal.

Também é o caso de Samuel L. Jackson, aterrorizante no papel de um escravo mordomo, mais racista que o mais racista dos brancos, e puxa-saco do patrão. Acho que nunca vi Jackson tão bem quanto em Django Livre – repetindo a performance mitológica de Pulp Fiction. Outro grande ator cuja capacidade salta aos olhos nas mãos de Tarantino.

Grandes atores no seu auge, cowboys bons de mira, diálogos de primeira, conjuntos cênicos inspirados tanto no western espaguete quanto nos filmes de samurai… Dá para querer mais de uma sessão de cinema? Django Livre é pipoca e guaraná, mas com mise-en-scène sofisticada. Repare nas flores de algodão borrifadas com o sangue de um facínora baleado. Para escolher uma única cena que – combinando beleza plástica, violência e humor – traduz muito bem a alma desse filmaço.

* * *

Tarantino racista?

Só um mal-intencionado ou um idiota do politicamente correto para achar que Django Livre é um filme racista. Disseram isso nos EUA – país onde esse tipo de idiotia corre solto – por conta da repetição do termo nigger (crioulo, numa inflexão muito pejorativa) nos diálogos. Ora, o filme trata de um herói negro em duelo permanente contra escravocratas, numa época e numa região americana em que o racismo era a regra, não a exceção. Negro era visto como bicho ou coisa pior. No filme, quando conclui que um escravo está quase cego e não consegue mais participar de suas rinhas, Calvin Candie ordena que o homem seja devorado vivo por cães.

Não, esse tipo de gente não usaria o termo afrodescendente. Termo que, aliás, acho inapropriado tanto na intenção quanto no conceito – a humanidade nasceu no continente africano, de modo que somos todos afrodescendentes.

No filme de Tarantino, um negro é o herói (Django), e outro é o personagem mais sagaz da história (o mordomo de Samuel L. Jackson). Os estúpidos e ridículos são todos brancos. O que fica muito claro na sequência em que um grupo à Ku Klux Klan se atrapalha com os capuzes característicos dos fanáticos – na hora de um ataque, descobrem que os olhinhos recortados no pano branco não deixam ver direito.  Imagine o grupo cavalgando quase às cegas…

Racista é gente com algum tipo de deficiência intelectual combinada a um desejo reprimido por negros parrudos. E Tarantino não tem nada a ver com esse perfil.

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8 comments on “Django Livre

  1. Essa história do racismo de Tarantino foi lamentável, e o pior é que Spike Lee entrou nela. Quanto à trilha sonora, mais uma pérola redescoberta pelo cabra: “I got a name”, de Jim Croce, que morreu muito novo.

  2. Eu fiquei esperando alguma reação daqueles 3 negros da carroça também. (Se bem que o olhar de um deles já prometia alguma coisa). Afinal já era segunda oportunidade que ele dava aos negros libertos de fazer ter uma reação. Sendo a primeira quando ele encontra o Django.

    Amei esse filme, só não mais que Bastardos Inglórios.

  3. Oi, Alessandro. Obrigado pelo comentário.
    Vi um pouco diferente de você. Achei que a intenção era mesmo fazer um filme homenagem ao western-espaguete, e que essa lapidação que você menciona deixaria o filme mais ambicioso do que ele pretendia ser. Podia também acabar provocando uma confusão de subtramas e tirar força da questão principal.
    Mas, enfim, só vendo para saber.
    Um abraço.
    Alexandre.

  4. Falou tudo e mais um pouco , Alê. Também postei a respeito, só que não com seu talento.Tarantino é um parque de diversões cinematográfico com direito a muita montanha russa.

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