O piano de João Donato

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O jazz de João Donato não é o jazz de Stan Kenton, um de seus ídolos, pois tem o som dos rios brasileiros gravado nas melodias, um aroma de aguardente mineira, suco de maracujá e a tranquilidade que só no Acre, sua terra, deve existir. Insistiam com ele que algo estava errado, que o músico era baiano, mas ele ficou em dúvida.

O problema, para ele acreditar no camarada que insistiu na coisa, foi que sua música brasileira não é a de Dorival Caymmi ou de Gil, parceiro seu num dos maiores hinos zen que o País já engendrou: A Paz. Sua música tem também o arranjo desconcertante que só os mestres do jazz, em seus altos voos, podem parir.

Algo dessas decolagens maravilhosas foi apresentado em 2007 em uma sequência de shows no Auditório Ibirapuera, templo de música de qualidade nessa terra sem céu. Donato lançava sua primeira gravação de piano solo, mas foi acompanhado de baixo, bateria e um performático e engraçadíssimo Filó Machado que o acriano se apresentou. O que foi aquilo?

Recomendo um show de João Donato não só a quem interesse uma música de primeira grandeza, um pianista de jazz impressionante e uma seleção de composições históricas, como Lugar Comum e Nasci Para Bailar. Recomendo para quem necessita de um antidepressivo, uma sessão de acupuntura ou qualquer outra forma de relaxamento profundo. Eu tive minha dose num domingo à noite; timing perfeito para começar a semana acreditando que a felicidade existe, apesar do patrão.

Não apenas a música de Donato é de uma paz de cadeira de balanço, como o homem, seu canto preguiçoso, suas brincadeiras que fluem sem que ele se dê conta, tudo no show o leva a despoluir o fígado e o espírito. A plateia não se continha nas gargalhadas, respondendo aos muitos gracejos inesperados que o próprio jeito meio confuso, meio genial de Donato faziam nascer. Chamou Filó Machado de “Escândalo em Alto Mar”, fazendo referência a um filme que, de verdade, ele não se lembra muito, nem se o nome era esse mesmo, nem se de fato o viu. Só se recorda de uma trilha sonora inspiradora, pois é a música que domina todos os seus pensamentos, tomando conta das sinapses e atrapalhando, de certo modo, o que escapa aos tons e timbres.

Donato é a conclusão inconteste de que o Acre existe.

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Nem sempre João Donato foi bonzinho assim, essa cabeça cheia de paz e amor. Gravado em Los Angeles na virada dos anos 60 para os 70, o álbum A Bad Donato é um torpedo funk com uma percussão afro-cubana de arrasar quarteirão. Tem jazz, psicodelia e James Brown temperando o vatapá picante desse disco – que é obrigatório para quem tem quadris e ouvidos ansiosos.

Vá comprar, sei lá, peça emprestado, ouça na Internet, só não fique sem.

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Quando escrevi este texto no meu antigo blog, em 2007, eis que o próprio João Donato me ligou. A mulher dele achou o post na internet, leu para o gênio, e o cara ficou emocionado. Me disse que eu tinha captado a essência do som dele como ninguém, gostou da minha menção a “suco de maracujá”, essas doideiras.

Nesse dia, me convenci de que o blog valia a pena.

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