Top 3 – Melhores filmes de faroeste

Clint

1º – TRÊS HOMENS EM CONFLITO

(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo)

DIREÇÃO: SERGIO LEONE

ANO: 1966

DURAÇÃO: 161 MIN

IMDb: 8,9

É TOP PORQUE… ENSINOU TARANTINO A FAZER WESTERN-SPAGUETTI

Numa das montagens mais copiadas – e parodiadas – da história do cinema, um duelo entre três pistoleiros (o bom, o mau e o feio do título original) é mostrado em uma sequência de cortes que, aos poucos, vai aumentando de rapidez e de eletricidade. É a ansiedade do primeiro rosto migrando para o quase desespero, a pele toda suada, do segundo – tendo como contraponto o semblante imperturbável do terceiro: o mocinho, infalível por vocação. Subitamente a cena aproxima ainda mais a imagem, mirando microscopicamente os olhos dos assassinos (claro, o “bom” não é exatamente bonzinho). Suores, olhos, campo aberto se misturam… num crescendo de aflição até que uma arma é disparada. E um dos rostos se contorce em agonia moribunda.

Mas não foi só por essa edição magistral de cenas que o filme do italiano Sergio Leone se tornaria uma das maiores referências de sua arte – é o faroeste mais bem colocado na lista dos melhores 250 filmes do IMDb.

Nos Estados Unidos de meados dos anos 1960, ninguém mais dava bola para filmes de bangue-bangue – o gênero tinha ficado cafona perto da sofisticação europeia que influenciava Hollywood. Já na Itália, o problema era outro: uma crise financeira inviabilizava superproduções. Foi quando Leone colocou o ovo em pé: começou a dirigir faroestes americanos, mas com pegada italiana. E assim inventou o western-spaguetti – do qual Três Homens em Conflito é o apogeu. Um filme que antecipou em 30 anos o estilo de Quentin Tarantino. E, de quebra, criou um mito do cinema: o anti-herói sem nome, monossilábico, de Clint Eastwood.

 

2º – RASTROS DE ÓDIO

(The Searchers)

DIREÇÃO: JOHN FORD

ANO: 1956

DURAÇÃO: 119 MIN

IMDb: 8,0

É TOP PORQUE… CLASSICÃO – E COM O MAIOR ANTI-HERÓI DO GÊNERO.

 

John Ford é o patriarca dos filmes sobre o Velho Oeste americano. E John Wayne, o maior astro do gênero. Dos filmes que esses dois craques fizeram juntos, este é o mais brilhante: uma obra canônica, cujo fã-clube vai de Steven Spielberg a Jean-Luc Godard – o francês-cabeça comparou a reunião familiar no final do filme ao encontro, na mitologia grega, do herói Ulisses com seu filho Telêmaco. Não por acaso, Rastros de Ódio está no topo do ranking de melhores faroestes do American Film Institute.

À primeira vista, a história até lembra uma trama convencional de vingança e resgate. Mas a jornada épica de Ethan Edwards (Wayne) para recuperar a sobrinha raptada pelos índios (Natalie Wood, ainda adolescente) vai muito além dessa síntese simplificadora: porque é também um mergulho sombrio nos subterrâneos do racismo puro. A relação maniqueísta entre mocinho (o homem branco) e bandidos (os índios sequestradores) vai ficando nublada conforme Ethan revela um ódio obsessivo contra os comanches. A questão que emerge é: o que mais o incomoda, o possível sofrimento da parente raptada ou o fato da garota estar feliz da vida entre os pele-vermelha, sua nova família? Uma cena simbólica dessa fúria mal disfarçada é quando o cowboy atira repetidamente nos olhos de um cadáver indígena, que já tinha sido enterrado – para que ele não encontre paz nem no além. Com o desenrolar da trama, Ethan vai se tornando o personagem que mais mete medo. E não só nos índios.

 

3º – OS IMPERDOÁVEIS

(Unforgiven)

DIREÇÃO: CLINT EASTWOOD

ANO: 1992

DURAÇÃO: 131 MIN

IMDb: 8,3

É TOP PORQUE… MATOU O FAROESTE PARA TIRÁ-LO DO TÚMULO.

 

Não espere aqui o herói impávido que eternizou a persona de Clint Eastwood como ator. Seu Bill Munny é um matador de aluguel aposentado que virou alcoólatra depois que a esposa morreu. Com o tempo, recupera a sobriedade e ganha uma consciência sobre seu passado sanguinolento: “É uma coisa dos infernos matar um homem. Você tira dele tudo que ele tem, e tudo que ele poderia ter”. Quando decide encarar uma última missão como pistoleiro, para vingar uma prostituta que teve o rosto desfigurado a faca, falta-lhe sangue frio: matar alguém é um trabalho que agora faz com puro horror, lembrando que um assassinato não tem glamour nenhum – embora Hollywood sempre tenha dito o contrário.

Nesta abordagem revisionista, toda a mitologia em torno do Velho Oeste homérico é corrigida. Sai o homem do comercial de Marlboro, entram cowboys tendo de lidar com todos os desconfortos: de cavalgar na chuva, dormir no chão… e até matar um homem que está tratando de seus próprios assuntos na privada. Filmado décadas após o auge do gênero, Os Imperdoáveis é o western antirromântico, anti-heroico, anticlichê… e, por tudo isso, redivivo. 

* * *

Estes textos meus estão na edição especial da revista Superinteressante “99 filmes que você precisa ver agora”, editada e escrita por mim. E que esteve nas bancas entre dezembro/15 e janeiro/16.

Enviar por E-mail

Sobre o autor:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não serã publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>