2001: Uma Odisseia no Espaço – 99 filmes que você precisa ver agora

Odisseia

Na época em que 2001 foi feito, o diretor Stanley Kubrick queria uma apólice de seguro. O risco coberto seria o de eventuais prejuízos caso fosse descoberta alguma forma de inteligência alienígena antes da estreia do seu filme. Tinha medo que tal descoberta deixasse a produção ultrapassada. Exagero, segundo o astrônomo e escritor Carl Sagan. “Em meados dos anos 1960, não havia uma busca por inteligência extraterrestre sendo feita, e a chance de tropeçar numa dentro de poucos anos seria extremamente pequena. A companhia de seguros perdeu uma boa aposta.”

Exagero também porque esta odisseia no espaço é mais sobre a relação homem-máquina e uma abstração poética sobre os caminhos da evolução – e os mistérios dessa aventura – que um filme de ETs. Pelo menos, distancia-se como nunca antes da ficção científica clássica ao representar a enigmática inteligência alienígena como um sólido monólito – em vez de antropomorfizar o “personagem”. A inovação teve influência direta na obra do russo Andrei Tarkovski, Solaris – considerado o 2001 soviético –, que mostra um planeta inteiro como uma perturbadora forma de vida. “Kubrick criou um filme que fez, repentinamente, todo o cinema de ficção científica envelhecer, correndo o risco de decepcionar os especialistas, que não encontravam, materializados nele, seus caros extraterrestres, e de deixar perplexos os amantes do gênero pela audácia de sua narrativa”, diz Michel Ciment, autor do livro Conversas com Kubrick.

Dentre as muitas perspectivas que o filme desperta, há também a abordagem do perigo representado pela evolução da inteligência artificial – na figura de HAL 9000, o supercomputador da nave Discovery One, que fala e mimetiza a mente humana. Apesar de ser o vilão do filme, a máquina tem um fim melancólico, que chega a emocionar – humanizado, expressa a percepção da própria morte iminente.
Claro, 2001 não é um filme para qualquer um. Contraindicado principalmente para os fãs de filmes em que a trama é explicada mastigadinha. Na pré-estreia, 240 pessoas saíram antes do fim da sessão, incluindo o ator Rock Hudson, que reclamou: “alguém pode me explicar sobre que diabos é esse filme?” Mas Hudson ficaria sem resposta. Em entrevista para a Playboy após o lançamento de 2001, Kubrick se recusou a explicar o sentido da coisa. E o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke – roteirista e autor do conto em que o filme foi baseado – disse o seguinte: “Se alguém entender de primeira, é sinal de que falhamos”.

Mas o enredo em si, dividido em partes distintas, não é tão hermético assim: na Pré-História, um monólito misterioso provoca um salto de evolução entre os primatas, que de coletores passam a caçadores armados. Milênios depois, uma expedição é formada para investigar o monólito, agora na Lua – uma missão sabotada pelo computador HAL, que mata quase todos os astronautas. O único sobrevivente entra em contato com mais um monólito, dessa vez na órbita de Júpiter, e atravessa um portal do espaço-tempo.

Mesmo com tantos mistérios, ou por causa deles, o filme revolucionou o gênero de obras futuristas, e virou um marco tão forte quanto seu monólito. A tal ponto que despertou uma curiosa teoria da conspiração: tendo sido o último filme a mostrar homens na Lua antes do pouso da Apollo 11 em 1969, o filme de Kubrick teria cedido cenas não usadas para forjar as imagens dos astronautas americanos em solo lunar. Boato, claro: as cenas da Apollo não foram tão bem filmadas assim.

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Este texto meu está na edição especial da revista Superinteressante “99 filmes que você precisa ver agora”, editada e escrita por mim. E que está nas bancas.

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