Um Sonho de Liberdade – 99 filmes que você precisa ver agora

shawshank

O ranking dos 250 filmes mais bem cotados pelos usuários do IMDb – Internet Movie Database, maior enciclopédia online sobre produções do cinema e da TV – tem um campeão imprevisto. Um Sonho de Liberdade supera pesos pesados como O Poderoso Chefão e Cidadão Kane na condição de completo azarão. Não ganhou prêmios chamativos e nunca fez parte das antologias de obras canônicas. Aliás, foi mal de bilheteria: rendeu US$ 28 milhões, o que só deu para cobrir os – já modestos – gastos dos produtores. Mas sua história de redenção dentro de um presídio americano passa uma mensagem tão poderosa de força de espírito (não por acaso, tinha Nelson Mandela como grande fã) que se tornou sucesso na base do boca a boca. E um fenômeno nas locadoras: foi o filme mais alugado de 1995 nos EUA, logo após o lançamento.

Sua trama é bem fiel a uma história de Stephen King – amigo do diretor – sobre um banqueiro bem-sucedido, Andy Dufresne (Tim Robbins), que chega ao presídio Shawshank nos anos 1940 com uma pena por duplo homicídio: é acusado de assassinar a esposa e o amante dela. Mesmo destoando dos companheiros de prisão pelo intelecto e a origem social, Andy cativa os companheiros – e sela amizade com Red (Morgan Freeman), um veterano do lugar, que ao longo de décadas vê seus pedidos de liberdade condicional negados. Parte justamente de Red a perspectiva de toda a história, narrada em off por Freeman; diferentemente do padrão em Hollywood, a locução foi gravada antes das filmagens, para que as cenas fossem construídas ao sabor do ritmo do que é contado.

A crônica dessa amostra humana dentro de um sistema prisional aproxima o longa-metragem mais da série Orange is the New Black (embora em outro tom) que da maioria dos “filmes de prisão”: seu olhar está na humanidade que subsiste em homens encarcerados, e amiúde tratados como animais. Está nas grandes perdas e nas vitórias pequenas, mas inesquecíveis, da convivência entre detentos, seus guardas e o diretor da prisão. Os personagens vivem o aprisionamento como se fosse a única vida possível – acostumados e até confortáveis em suas restrições. Não pensam em fuga ou abrandamento de pena. Até temem qualquer esperança de liberdade – anestesiados contra um sonho que não se realiza. A detenção é a própria identidade desses homens.

Mas não de Dufresne. A forma como ele rapidamente alcança empatia é lembrando a todos – menos com palavras que com grandes atos – como é sentir-se um homem livre. Mesmo naquele lugar. Seja conseguindo cerveja gelada para os colegas numa negociação surpreendente com o guarda mais cruel do lugar, seja colocando ópera nos autofalantes do presídio para inserir música naquela rotina cinzenta – mesmo sabendo que o preço da transgressão será um período na solitária. E aí está uma cena-chave do filme: Dufresne desafia a proibição às claras, sem esconder-se. Ficar na solitária ou não pouco lhe importa, faz parte do jogo de se estar preso – e ele não se sente preso por dentro.

Mas esse santo dos detentos tem também suas dubiedades: até certa altura do filme, você não sabe se o banqueiro é ou não culpado pelo assassinato da mulher. O que se vê em flashback é a preparação dele para um crime, seu estado alterado pelo álcool, e depois suas respostas evasivas quando lhe perguntam por que foi condenado.

Com toda a aparência de um Conde de Monte Cristo moderno, o drama do diretor Frank Darabont é um filme de prisão sem estratégias conjuntas de fuga, e vai na contramão das obras que enfatizam a perda gradual da humanidade num ambiente de repressão. Ao contrário. Essa linha, adotada por muitos filmes de prisão, cria uma barreira entre o espectador e a tela – há neles uma aventura violenta que, embora atraente pela tensão do thriller, se diferencia em tudo da experiência cotidiana. Já Um Sonho de Liberdade sobressai justamente por colocar em primeiro plano – e com brilho – a amizade, a lealdade e a sabedoria adquirida com o passar dos anos. Valores universais, atemporais e que ultrapassam qualquer cenário – ainda que este pareça a antítese do que esses valores expressam. 

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Este texto meu está na edição especial da revista Superinteressante “99 filmes que você precisa ver agora”, editada e escrita por mim. E que está nas bancas.

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