O Poderoso Chefão – 99 filmes que você precisa ver agora

Poderoso

A mitologia do cinema ficaria manca sem as grandes cenas de O Poderoso Chefão: o acordo de submissão e fidelidade do imigrante Bonasera com o padrinho Vito Corleone (Marlon Brando, aparentando 20 anos a mais que seus 47 na época, e com cara de buldogue); a alegria solar de uma festa de casamento em contraponto com a escuridão no cômodo em que mafiosos acertam vendettas; a cabeça de cavalo ensopando de sangue a cama de um inimigo (cena campeã de paródias); o balé terrível que é o fuzilamento do filho Sonny num pedágio (sequência inspirada em Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas); os diálogos que viraram fenômeno pop (“deixe a arma, pegue os cannoli”). E a sequência final, conjugando o extermínio de famílias rivais com a solenidade de um batizado de criança. Entre os sacramentos do matrimônio e do batismo que amarram o filme, vemos 18 corpos assassinados. Incluindo o cavalo.

Mas a história dos bastidores sugeria um fracasso retumbante. Ou que o filme jamais fosse feito – ou escrito. Mario Puzo, autor do best-seller em que o roteiro se baseia, teve de ser convencido pelos editores a escrever sobre a máfia. Uma oferta que ele não podia recusar: seus livros anteriores tinham ido bem de crítica, mas encalharam nas lojas. E o escritor devia a bancos, financeiras e agiotas – nesta ordem de desespero.

Depois, os produtores começaram a jogar contra o patrimônio. Não queriam Brando – que era famoso por arrumar encrenca. Nem o desconhecido Al Pacino para o papel principal: o filho pródigo Michael Corleone. Ambos só ficaram por muita insistência de Coppola. Isso antes que o próprio cineasta tivesse a cabeça pedida – o elenco trabalhava com a informação de que ele podia ser demitido a qualquer hora. (A última cena do filme, da porta se fechando enquanto gângsteres beijam a mão de Michael, foi imposição de um produtor – Coppola queria terminar com uma cena na igreja, uma analogia para a confusão entre as noções de bem e mal.)

E havia riscos ainda piores envolvendo as filmagens – no caso, riscos de vida mesmo. Repare que os diálogos de O Poderoso Chefão nunca mencionam as palavras “máfia” ou “cosa nostra”. Foi exigência dos mafiosos de verdade, representados pela Liga dos Direitos Civis Ítalo-Americanos, que queriam impedir a má propaganda que o longa poderia render aos seus “empreendimentos”. Tanto que chegaram a balear o carro de uma assistente de produção.

Mas ninguém perdeu o emprego. Nem o pescoço. Pelo contrário: o filme fez sucesso desde a estreia, rendeu uma das melhores bilheterias da história, e ainda ganhou três estatuetas no Oscar: melhor filme, roteiro e ator – para Marlon Brando. Deu tudo tão certo que a Paramount Pictures chegou a planejar o lançamento de uma linha de molhos de espaguete e uma franquia de cantinas com a marca Godfather. “Isto é negócio, não é pessoal.”

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Este texto meu abre a seção de filmes de máfia na edição especial da revista Superinteressante “99 filmes que você precisa ver agora”, editada e escrita por mim. E que está nas bancas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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