10 anos da Revista Paisà

Paisa

Faz 10 anos agora, neste novembro: o lançamento de uma revista de cinema que foi um dos trabalhos que mais amei na vida, apesar das dores do parto e principalmente do pós-parto. Um projeto e um investimento pessoal, uma lição e uma brincadeira ao mesmo tempo – que dão saudade. E que começaram poucos meses antes. Assim:

Eu e meu amigo de faculdade, Sergio Alpendre, numa inédita “reunião de negócios” no restaurante Sujinho, na Consolação, combinando um plano infalível: lançar uma revista de cinema – impressa mesmo, bimestral – que realizasse o sonho de, um dia, transformarmos nossa cinefilia em ganha-pão. E foi em meio a maminhas, batatas, alguns consensos e muita cerveja que ganhou corpo a ideia da revista Paisà – que naquela primeira reunião ainda não tinha nome.

Caramba, parecia impossível dar errado. Mesmo que não desse certo. Afinal, se não tivesse dinheiro, ainda estaríamos nos divertindo a trabalho, entre amigos (namorada e família também, que acabei envolvendo), escrevendo na nossa própria revista. Ainda que o mundo não desse mais bola para revistas impressas. De cinema. E de um tipo de cinema não exatamente popular. Lógico, a realidade não demoraria a chegar – deixando os dois sócios/fundadores/editores com dívidas quase impagáveis e um aprendizado inesquecível. Mas foi bom, vou te dizer.

Tivemos uma edição número zero da Paisà, distribuída só para os nossos primeiros assinantes – as pessoas que, durante a Mostra Internacional de Cinema daquele ano, guardaram nossos folhetos promocionais e se inscreveram por e-mail para receber a revista. A matéria de capa era sobre um filmaço do Cronenberg – que ganhou também uma retrospectiva na edição. Entrevistamos o diretor Marcelo Gomes (de Cinema, Aspirinas e Urubus), falamos dos lançamentos do cinema e dos DVDs (escrevi sobre Flores Partidas, do Jim Jarmusch), e levamos o desenhista – e amigo – Paulo César Santos para “eleger” o melhor frango à passarinho da Rua Augusta numa seção sobre o que fazer “depois do filme” – outra desculpa para beber em serviço.

E a atriz Ana Paula Arósio escreveu para nós. Falou sobre seu filme preferido, Barry Lyndon, numa declaração apaixonada pelo cinema do Stanley Kubrick. Grande escolha, aliás.

Já ali montamo um time de colaboradores vindos da Folha de S. Paulo, do site Contracampo e entre cinéfilos bons de texto. Na arte, a direção de outra amiga da FAAP: Silvana Tai.

A partir da edição seguinte, fomos para as bancas – um esforço hercúleo de distribuição no eixo Rio-São Paulo, empreendido sobretudo pelo Sergio e meu irmão Ricardo. Eu ia para as bancas da Paulista e morria de orgulho de ver nossa revista ali, lado a lado com os produtos das grandes editoras. Uma satisfação misturada com medo puro (“mesmo que não desse certo…”).

Uma hora, claro, o dinheiro acabou. Ou nossa capacidade de endividamento, porque o dinheiro terminara antes. Mas que sensação, escrever na sua própria revista, sobre o seu hobby, fazendo reuniões de pauta e fechamentos entre maiores amigos. Que irresponsabilidade, que tremenda insanidade boa de se cometer.

Penso na Paisà como num caso de amor que em algum momento teve de terminar. Os chegados comentam: “ah, acabou? Que pena que não deu certo”. Mas eu acho que deu.

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