Documentário – Bikes vs Carros

Bikes vs Carros - ABRE 1

Como seria um mundo com mais bicicletas nas ruas? A questão vem provocando respostas contrastantes de algumas lideranças regionais ao redor do planeta. Rob Ford, prefeito de Toronto, no Canadá, considera que o aumento da presença das bikes é nocivo para o trânsito da cidade – direcionado prioritariamente para os veículos automotores. Não à toa, ele foi eleito com uma imensa maioria de eleitores que moram nas áreas de Toronto mais distantes do centro – e que consideram que precisam se deslocar de carro para o trabalho sem tanto congestionamento. O lema do prefeito tem sido o de ir contra o que chama de “guerra contra os carros” e, assim que assumiu a prefeitura, Ford investiu US$ 300 mil do orçamento da cidade numa ação de remoção das ciclovias existentes.

Na outra ponta desse cabo de guerra estão cidades como Amsterdã e Copenhague, a capital da Dinamarca, onde cerca de 40% de todos os deslocamentos se dão por bicicleta. Ou São Paulo, cuja Avenida Paulista acaba de ganhar uma ciclovia – contestada por uns, exaltada por outros.

É desse aparente choque entre os veículos de quatro rodas, motorizados, e os de duas rodas, movidos tão somente pelo esforço do corpo humano, que trata o documentário Bikes vs Carros, que entrou em cartaz no Brasil em julho – e logo deve estar disponível para locação ou nos serviços de streaming. O filme mostra como se dá (ou se deu) a presença da bicicleta no trânsito de grandes cidades de diferentes partes do mundo: Los Angeles, Bogotá, Copenhague, Toronto e a nossa São Paulo. E também qual o impacto – para o trânsito e para a qualidade de vida, em geral – dos projetos urbanos voltados para a predominância dos automóveis. Uma cena poderosa do filme mostra um grupo de pessoas lamentando a morte de um ciclista, enquanto um caminhão-cegonha passa ao fundo, lotado de carros novos.

 

A PALAVRA DO DIRETOR

A despeito do título do documentário, que pode sugerir uma luta entre duas visões divergentes, a intenção de Bikes vs Carros é mais informar do que provocar animosidades. “O filme não é sobre um conflito entre motoristas e ciclistas. O planejamento das cidades, baseado nos lobbies da indústria, tem feito com que as pessoas se tornem dependentes dos carros. Mas os motoristas também são vítimas disso, e têm pagado com seu tempo gasto em engarrafamentos intermináveis”, afirma o sueco Fredrik Gertten, diretor do documentário. “Eu viajei pelo mundo todo me perguntando por que há tão poucas bicicletas. O modelo voltado para o carro, como o conhecemos, atingiu um nível extremo com os milhões de horas produtivas que perdemos nos congestionamentos do dia a dia. Por isso, a frustração tem aumentado, e as cidades precisam procurar novos modelos. O novo movimento de ciclismo urbano começa a proporcionar esse desenvolvimento.”

Gertten também explica por que escolheu a capital paulista como uma das cidades em destaque no filme (é a que mais aparece, aliás): “São Paulo representa as economias emergentes onde a classe média consumidora vem crescendo. As vendas de carros estão bombando e a insatisfação com o trânsito tem aumentado no mesmo ritmo. Um deslocamento médio nessa cidade implica três horas parado no trânsito”.

 

EM CADA PAÍS, UM PONTO DE VISTA

Uma das protagonistas do filme é a brasileira Aline Cavalcante, que se mudou para São Paulo em 2008 e logo em seguida descobriu a bicicleta como meio de locomoção. Virou imediatamente uma entusiasta e também uma defensora do ciclismo urbano – escreve no blog Vá de Bike, um dos mais representativos do cicloativismo. Aline aparece no filme participando de manifestações, lamentando as mortes de ciclistas no trânsito e, já mais para o fim, celebrando a iniciativa da atual prefeitura, de implantar 400 quilômetros de ciclovias na capital.

Outro personagem que chama a atenção é o americano Dan Koeppel, escritor e fundador do  The Big Parade, um grande evento de dois dias de caminhadas por Los Angeles – uma cidade que é símbolo de projeto urbanístico quase que exclusivamente voltado para o deslocamento por carro. Koeppel revela os trechos de Los Angeles onde antes havia grandes ciclovias, no começo do século 20, e explica como os lobbies e o poder da indústria transformou completamente a cara da capital da Califórnia.

Invertendo a perspectiva, Bikes vs Carros também mostra um personagem muito curioso. É o dinamarquês Ivan Naurholm. Ele é um taxista de meia idade que acompanhou o desenvolvimento de Copenhague até a cidade ter uma das melhores estruturas para ciclistas urbanos de todo o mundo. Ao mesmo tempo que reconhece os benefícios dessa escolha de planejamento viário, Ivan sofre com o estresse de ter de compartilhar o trânsito com ciclistas, por considerá-los indisciplinados – e também pela proximidade da bicicleta exigir do motorista um cuidado muito maior em suas manobras.

Embora com um perfil evidentemente cicloativista, Bikes vs Carros é um filme recomendável para qualquer um que se interesse pela melhoria da mobilidade em sua cidade, e que abra sua cabeça para uma visão de trânsito – e de mundo – diferente da convencional. Não se trata aqui de crucificar motoristas. Mas de apontar soluções que possam ir além da suposta necessidade de mais avenidas grandes, mais viadutos, mais túneis – opções caras e que, na prática, não têm melhorado os deslocamentos nas principais metrópoles do planeta.

Texto meu originalmente publicado na Revista CESVI

Enviar por E-mail

Sobre o autor:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não serã publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>