Olivia de Havilland faz 99 anos – para inveja da irmã

Olivia de Havilland

Hoje é aniversário de Olivia de Havilland, a boazinha Melanie de … E o Vento Levou, que ainda vive em Paris, aos 99 anos. Num trecho do meu livro “INVEJA – Como ela mudou a história do mundo”, falo sobre o filme que a tornou imortal, com destaque para a rivalidade invejosa entre a atriz e sua irmã, Joan Fontaine. As duas ganharam Oscar – e se odiaram a vida inteira. Leia a seguir.

* * *

 … E o Vento Levou é a principal referência de épico cinematográfico da história. E foi concebido meticulosamente para ser um blockbuster como nunca se vira – o que incluiu alto investimento em publicidade e uma superprodução megalomaníaca. Para você ter ideia, na cena em que há um incêndio em Atlanta, os produtores mandaram tocar fogo de verdade nos cenários que sobraram do filme King Kong – e as chamas foram tão intensas que os vizinhos congestionaram as linhas telefônicas achando que a MGM estivesse queimando toda. Além disso, para gravar um grandioso plano aberto mostrando 1.600 soldados deitados à beira da morte, a produção somou 800 bonecos humanoides aos 800 figurantes contratados – porque o sindicato não permitia que houvesse tantos extras trabalhando ali. Isso quase 80 anos atrás. Mas nem todo mundo concordava que o filme ia dar certo.

“Será o maior fiasco da história de Hollywood.” “Ainda bem que é o Clark Gable quem vai quebrar a cara.” Foi assim que o astro Gary Cooper, que não quis participar da produção, amaldiçoou … E o Vento Levou antes da estreia. E ele não estava sozinho no mau agouro: o próprio Gable não sentia firmeza. Apesar de fazer o galã do filme, ele achou que o papel não fazia bem para a sua masculinidade: para ele, esse drama era uma história para mulheres – incompatível com sua imagem de machão. Não podia dar certo.

Como se sabe, Cooper e Gable erraram por muito. Os americanos fizeram fila para assistir ao romance da patricinha sulista Scarlett O’Hara com o aventureiro pragmático Rhett Butler em meio à queda dos confederados na Guerra de Secessão – a maior carnificina entre patrícios nos Estados Unidos. … E o Vento Levou faturou oito estatuetas no Oscar, incluindo a de melhor filme (o primeiro colorido a vencer), e é até hoje a maior bilheteria do cinema de todos os tempos – deixando Avatar numa distante segunda colocação.

Mas apostar contra esse sucesso todo não era uma completa falta de juízo. Em primeiro lugar porque o filme justifica como poucos o termo longa-metragem: tem quatro horas de duração. Também não ajuda o fato do seu diretor ter sido demitido e substituído no meio das filmagens. E mais: falta à história um dos elementos-chave de apelo popular – um final feliz. Pelo contrário, o casal se separa justamente no fim. Diante dos argumentos da esposa que finalmente dizia que o amava, a última fala de Rhett Butler em cena é: “Francamente, querida, estou pouco me lixando” – a melhor frase da história do cinema segundo o ranking do American Film Institute.

Além de tudo isso, havia o fator Scarlett. Em vez de garantir ingressos contratando uma estrela de Hollywood, o produtor todo-poderoso David O. Selznick preferiu apostar numa atriz inglesa completamente desconhecida nos Estados Unidos: Vivian Leigh. E olhe que não foi por falta de candidatas americanas: 1.400 atrizes foram entrevistadas para o papel.

Mas pelo menos Scarlett O’Hara é uma heroína inspiradora, a mocinha de coração valente típica dos grandes épicos, certo? Mais ou menos. Apesar de demonstrar bravura em algumas situações, a personagem é uma mulher mimada, fútil, que passa o filme inteiro manipulando as pessoas. Ela só cai do salto diante do sucesso da rival mais improvável: Melanie Wilkes.

No estilo oposto ao de Scarlett, Melanie encanta todo mundo com seu jeito humilde e um altruísmo de Madre Teresa – qualidades que Scarlett secretamente inveja, mas que nunca conseguiria ter. “Ela é pálida, fingida e eu a odeio” é a primeira fala da personagem se referindo à rival no filme – e isso antes mesmo de Melanie se casar com o único homem que a protagonista quer de verdade, e não pode possuir: o vizinho Ashley.

Mas, enquanto nos fotogramas de … E o Vento Levou a boazinha Melanie responde ao olho gordo de Scarlett com santidade, na vida real a atriz que a interpretou, Olivia de Havilland, tinha uma relação muito diferente com a inveja.

Ela e a também atriz Joan Fontaine mantiveram o maior caso de rivalidade invejosa entre irmãs dos bastidores do cinema – que veio desde o berço e durou até a morte de Joan em 2013, aos 96 anos. Inglesas, nascidas com apenas 15 meses de diferença, ainda crianças foram morar na Califórnia, porque a mãe achava que o clima ensolarado da costa oeste americana faria bem à saúde frágil de Joan, a caçula. Isso fixou em Olivia uma impressão de que a irmã fazia de tudo para aparecer mais do que ela, inclusive fingir que estava doente. A revanche veio em forma de um bullying sério, em que valia até tentar quebrar a clavícula da mais nova. Quando Olivia foi editora de um jornal do colégio, publicou um falso testamento que dizia: “Eu deixo toda a minha beleza para a minha irmã, já que ela não tem nenhuma”.

Desde cedo, as duas competiam para ver quem deslanchava primeiro na carreira artística, e foi Olivia quem começou logo a ter bons papéis no cinema. Estrelou sucessos como O Capitão Blood e As Aventuras de Robin Hood, ambos com o astro Errol Flynn. Até que, durante um jantar entre artistas, Joan Fontaine comentou com David O. Selznick que estava lendo um romance muito bom, Rebecca. E a resposta do produtor mudou sua vida para sempre: “Eu comprei [os direitos autorais desse livro] hoje. Quer fazer um teste para o filme?”. Joan participou dos testes e foi a escolhida. O nome do diretor? Alfred Hitchcock. A parceria deu tão certo que a atriz foi indicada ao Oscar, e Hitch a chamou para um segundo filme, Suspeita.

E foi aí que Joan Fontaine sacudiu a poeira de vez: mais uma indicação ao Oscar, e dessa vez competindo com Olivia de Havilland, que concorria por A Porta de Ouro. O burburinho foi grande em Hollywood, porque nunca antes na história do prêmio duas irmãs haviam concorrido na mesma categoria – a de melhor atriz principal. E Joan venceu.

Em sua biografia, ela conta como foi esse momento: “Olhei para o outro lado da mesa, onde Olivia estava sentada. Todo o ódio que sentíamos uma pela outra desde crianças, os puxões de cabelo, as brigas selvagens, a vez em que ela tentou quebrar minha clavícula, todas essas imagens voltaram como num caleidoscópio”. A irmã até foi cumprimentá-la fora de cena, mas Joan fez de conta que ela era invisível.

Joan Fontaine (à esquerda) e Olivia de Havilland

Coincidentemente, antes de sonhar em ser a atriz do ano, Joan Fontaine passou perto de ganhar o papel de Melanie em … E o Vento Levou. Segundo o jornalista Scott Feinberg, especialista em coberturas do Oscar – e que entrevistou as duas irmãs –, enquanto todas as atrizes americanas queriam uma chance de disputar o papel de Scarlett O’Hara, o diretor do filme, George Cukor – o que seria demitido –, chamou Joan para conversar sobre a personagem Melanie. Então, diante de um compromisso tão importante, Joan naturalmente decidiu vestir as roupas mais chiques que tinha no armário. Mas foi um equívoco. Cukor não conseguiu associar aquela figura de coluna social com a personagem sem vaidade do roteiro. Diante da negativa, Joan lhe disse que, se buscava alguém sem glamour, então que procurasse a sua irmã. Ele procurou. E assim Olivia de Havilland ganhou o papel mais notável de toda a sua carreira.

Olivia não ganharia o Oscar por … E o Vento Levou. O prêmio de atriz coadjuvante foi para outra participante do filme, Hattie McDaniel, a primeira negra a ganhar o prêmio da Academia. Mas ela ainda venceria duas vezes (Só Resta uma Lágrima, de 1946, e Tarde Demais, de 1950), batendo a irmã, que só venceu por Suspeita. Mesmo assim, Joan levou para o túmulo a certeza de que sempre foi invejada pela mais velha. Até na morte. “Eu casei primeiro, ganhei o Oscar antes de Olivia e, se eu morrer primeiro, ela sem dúvida vai ficar furiosa, porque eu terei sido a primeira.”

E assim foi. Olivia de Havilland ainda vive uma velhice tranquila em Paris, próxima de completar 99 anos – ela é a única artista do núcleo principal de … E o Vento Levou que viu o século 21.

 

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