Oleanna – Sesc Pompeia

Oleanna

Assédio sexual foi a primeira leitura que muita gente fez quando o dramaturgo americano David Mamet lançou sua peça Oleanna, no começo dos anos 90. Burrice. Ele logo pediu a palavra aos jornais para corrigir isso. A peça – que viraria filme, menos bem-sucedido – falava, fala, é de jogo de poder e incomunicabilidade. E da praga do politicamente correto.

São só dois personagens: um professor universitário, pedante, ansioso por uma promoção iminente que vai lhe permitir comprar uma casa nova; sua aluna, que não entende a maioria dos conceitos expostos em aula (admitindo a ignorância, o que não acontece com 90% dos estudantes), e que procura o mestre reservadamente para discutir notas e dificuldades.

Tudo começa obedecendo ao paradigma desse vínculo: o professor é aquele que sabe, o que tem poder de vida e morte sobre a ascensão de seus estudantes. Mas a aluna, a despeito da encarnação de burrinha no primeiro ato, vira a mesa e inverte essa relação no segundo. Ela acusa formalmente o professor de sexismo e pornografia nas aulas, e de assédio sexual no último encontro entre os dois. As acusações são uma ameaça à promoção do professor. À casa nova. A partir dela, o poder de vida e morte sobre o futuro do outro passa para as mãos da menina.

E a queixa de assédio se baseia em fatos. O professor tinha estado, imprudentemente, fechado numa sala com a aluna. Dito a ela que a ajudaria com melhores notas porque “gosta dela”. Em dado momento, colocou a mão no seu ombro. Opa!

A descrição fria em palavras, aqui neste blog, dá a mesma suspeita que poderia chegar ao comitê disciplinar da faculdade. O professor teve uma conduta inadequada. Mas quem vê as cenas sabe que não é nada disso. A mão no ombro é inocente. E as ofertas de ajuda do professor têm um objetivo bem distinto do alegado pela aluna: ele quer confirmar seu status quo. Mostrar seu poder de transformar a vida de seus estudantes – para vencedores ou losers. Mas não é isso que ela entende.

O professor vira a vítima da trama. Sua reputação caminha para o buraco por causa de uma aluna zangada, frustrada – talvez vingativa. Mas tomar as dores do professor é uma leitura igualmente rasa da peça. Assim como a garota age como age porque interpreta mal as atitudes dele, o professor falha na imagem que forma da estudante e dos seus problemas. Ao subestimá-la, abrindo suas asas de pavão do poder, ele confirma sua negligência. Vai à sala de aula por egolatria. Pela promoção. Pela casa nova. Sua comunicação é um fracasso tão grande quanto o dela. Mas ele tem mais a perder.

Há uma nova montagem da peça em São Paulo, no Sesc Pompeia. Com um rodízio de atores. Vi a versão que traz Miwa Yanagisawa como professora e Luciana Fávero no papel da aluna. O fato novo da professora mulher, homossexual, reforça a carga de estereótipos que os personagens fazem um do outro. E as duas atrizes acertam em cheio nessa gangorra de subordinação hierárquica.

Montar Oleanna no Brasil em 2015 faz muito mais sentido do que faria quando o texto chegou pela primeira vez aos palcos americanos. Porque adotamos aqui o politicamente correto dos Estados Unidos com 20 anos de atraso. E a cartilha do PC diz que não importam suas intenções, mas seus atos. Chamar um mulato de “crioulo”, caso você seja amigo dele, pode até ter objetivo afetuoso, de demonstração de intimidade. Mas o que vale então é o ato em si: você usou um termo racista. Exagero? Será? Quem já parou para investigar como o amigo se sente de verdade quando ouve a coisa, para além do sorriso amarelo? Colocar a mão no ombro de uma aluna pode ser igualmente ambíguo – proteção ou violência – a depender do filtro de cada um.

O politicamente correto é a prova de que, mesmo após milênios de evolução, ainda tiramos zero em interpretação de texto.

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