O Último Concerto

Quartet

O pano de fundo aqui é a música erudita – um tipo de arte que não anda na mesma calçada de 99% do público. Mas um filme pode ser universal tratando de pinguins cantores, náufragos psicóticos e viajantes do tempo. Ou de musicistas de alta performance, esses nerds também raros, cuja obsessão chega às crinas de cavalo dos arcos que roçam seus violinos.

É desse microcosmo que trata O Último Concerto. Mas não é de técnica ou da anatomia dos gênios que o filme fala. E sim da humanidade que existe, veja você, até nas relações imperfeitas entre um quarteto de cordas.

De Peter (Christopher Walken), o mais velho, mal acostumado à iminência de seu fim como músico, ao receber um diagnóstico de mal de Parkinson. Sua queda – a perda do ponto de equilíbrio no grupo – desencadeia os conflitos até então adormecidos entre os outros.

Robert (Philip Seymour Hoffman, em um de seus últimos trabalhos) não quer mais ser a sombra do primeiro violinista, Daniel (Mark Ivanir). A explosão de sua insatisfação terá consequências sobre todos – e a formação de um caos num quadrado em que a harmonia é mais que um bônus: é o próprio chão da performance.

Juliette (Catherine Keener), responsável pela viola no conjunto (não confundir com violão), é quem mais sente o golpe com a doença de Peter – e não se vê mais tocando sem ele, num questionamento de sua própria razão de ser.

Já Daniel, o perfeccionista, arquétipo da pureza estética, perde a pose quando se envolve com sua pupila (Imogen Poots),
muito mais nova. A situação, delicada por si só, tem o agravante da garota ser… filha de Robert, o homem que quer seu lugar no quarteto.

Esse drama é interpretado por um grupo de atores tão afinado quanto os instrumentos que fingem tocar em cena. Com destaque especial para Christopher Walken, exalando a sabedoria de alguém que aprende a conviver com a morte se materializando à frente – a morte como artista e como retrato incontornável de sua velhice.

E também para Philip Seymour Hoffman, cujo personagem é a antítese da imagem que se tem de um virtuose do violino: Robert é sanguíneo, invejoso, vingativo – disfarça mal a infantilidade por trás do ego imenso. Complexidades que Hoffman doma com a energia e o ineditismo de sempre.

Entre as muitas sequências fortes do filme, uma talvez menos ambiciosa foi marcante para mim. Quando Peter conta a seus alunos de música sobre a ocasião em que, ainda novato, tocou para o grande violoncelista catalão Pablo Casals. Na época, muito nervoso, acabou errando quase tudo que tentou. Mas o fracasso não parecia percebido por Casals, que o elogiava e pedia que tocasse mais e mais. Anos depois, já um músico consagrado, Peter perguntaria a Casals por que motivo ele não fez qualquer observação sobre os erros daquela audição. Seria falsidade, ou uma forma cruel de desprezo? Mas Casals respondeu que tinha sido sincero. E que seus elogios se deviam a dois ou três movimentos surpreendentes que ouviu na performance de Peter – pontos altos que justificavam ele querer ainda mais daquela sessão.

É um paralelo (particular, diga-se) que eu faço com o hábito de quem vai muito ao cinema. Dos filmes que entram em cartaz toda semana – e posso acrescentar: todos os anos –, poucos são os que têm o acerto de tom de O Último Concerto, ou a grandeza de Era Uma Vez em Nova York (sobre o qual escrevi aqui há algumas semanas). A imensa maioria patina entre a mera ruindade, a mediocridade e o passatempo satisfatório, mas esquecível.

Só que o cinéfilo pode ter uma percepção parecida com a de Pablo Casals diante de uma execução malsucedida: a de que mesmo um filme ruim tem uma passagem, um diálogo, um enquadramento específico, um personagem… algo que acerta na mosca e te pega de surpresa. E, em alguma medida, muda a forma como você capta o mundo, ampliando a sua perspectiva. Por esse prisma, todo filme vale a pena. Tá, quase todos…

O Último Concerto, para a sorte de quem o assistir, é muito mais que esses pequenos achados. É todo um conjunto de boas escolhas, que vão do roteiro aos atores fantásticos e em harmonia. É dos raros imperdíveis mesmo para os não cinéfilos. E até para quem Beethoven é só aquele cachorro da Sessão da Tarde.

 

Enviar por E-mail

Sobre o autor:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não serã publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>