Palmeiras – Menos que 100 anos, mas a vida toda

Palmeiras

Não adiantou eu saltar o mais alto que pude. Eu só tinha 7 anos. E, à minha frente, nas arquibancadas do Morumbi, saltava junto o maior público de uma partida do Palmeiras em todos os tempos até hoje: mais de 127 mil pessoas. Só por isso perdi a conclusão da tabela: Jorge Mendonça escapa de dois marcadores e cruza para o outro lado do campo. Rosemiro devolve de primeira. Sob o trajeto aéreo da bola, Escurinho ameaça simular um pênalti, mas desiste de se esparramar no chão. Nem precisava. Mendonça já estava dentro da área, para o pânico do goleiro Vitor, finalizando com um balaço de esquerda, de sem-pulo, no primeiro gol da tarde. O segundo seria enfim de Escurinho, arremessando-se suicida, agora ao encontro da bola, num gol de peixinho.

Esses detalhes todos de gols acontecidos em 1978, num 2×0 contra o Santos, assisti no YouTube – veja: www.youtube.com/watch?v=mFzuawb3W40 . Ao vivo, só vi camisas verdes “modelo retrô” pulando eufóricas, bandeiras rasgando o pouco de céu que eu conseguia enxergar, e meu pai deixando o copo de cerveja no chão para me erguer sobre os ombros. O gesto permitiu ao menos que eu visse os jogadores se abraçando. Nesse jogo, aprendi que no estádio não tem replay.

Porque, uma semana antes, eu consegui ver os gols. Eram “só” uns 40 mil torcedores no Pacaembu, não tinha tanta gente na minha frente. Palmeiras 2×0 Ponte Preta. Gols de Escurinho (ele de novo) e Pedrinho. Também pelo Campeonato Paulista. Uma partida que não decidiu título nem classificação, não bateu recorde de público, não teve gol de bicicleta nem de peixinho. Mas foi a insubstituível primeira vez, a primeira tarde em que uni meus gritos e pragas aos de uma torcida no estádio. E começando com a melhor das tabelinhas: puxado pela mão de meu pai.

Acho que eu devia estar resfriado na época, porque meu pai – à época com 37 anos – me disse que precisávamos ir a uma clínica distante – morávamos no Parque Continental, quase Osasco – para eu tomar uma injeção. Estranhei minha mãe não ir junto. A verdade daquela “ida ao médico”, só descobri na Avenida Pacaembu, quando começaram a pipocar vendedores de bandeiras do Palmeiras, as turmas de torcedores passando a pé entre os carros, clima de celebração, de Ano-Novo, de confraternização de fim de guerra, por um jogo que só valia 2 pontos no campeonato. Um tipo de sensação que você só tem em jogo de futebol. E que leva milhares ao estádio mesmo diante das piores expectativas com o time do momento.

O tal remédio era o Palmeiras. E, apesar de ter mais sofrido que comemorado durante praticamente um terço da história centenária do Verdão, continuo dependendo da tal medicina.

Como o viciado que procura em cada dose a mesma sensação sobrenatural e irreproduzível da primeira vez, acompanho anos e anos de times mais e menos fracassados – alguns poucos conquistadores de títulos, muitos inaptos para qualquer esperança de alegria – com a vontade férrea de quem procura um fóssil raro em quilômetros e quilômetros de parque arqueológico.

Nada que mereça sequer a sombra daquele 1978: de gols de jogadores de seleção, de um time vitorioso – ou pelo menos temível –, de pessoas que nunca se viram antes entreolhando-se satisfeitas, e meu pai me puxando pela mão, me erguendo nos ombros, sorrindo.

Isso tudo, nem as piores gestões da Sociedade Esportiva Palmeiras vão tirar de mim. Porque a relação que eu tenho com o time é a de um menino com seu pai – assim como levo para o túmulo o sobrenome paterno, os amigos e familiares sabem que carrego, para todo o sempre, essa tatuagem, esse outro nome, esse avatar: palmeirense.

* * *

Não dá para resistir ao clichê de também montar o meu Palmeiras de todos os tempos. Mas, apesar de Ademir e Djalma Santos, mitos que não vi jogar, vou me restringir aos times de 1978 para cá, que testemunhei e sei o que estou dizendo: Marcos, Arce, Antonio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio, Jorge Mendonça, Alex e Rivaldo; Edmundo e Evair.

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