Pátria do lugar-comum

Entrevista

Para usar a expressão favorita de uma pequena editora onde trabalhei uns 15 anos atrás, numa vida que não reconheço mais como minha, a lista de obviedades em relação ao fracasso da seleção “não para de crescer”.

Passo longe de mesa redonda ou caderno de esportes para não ser mais informado de que “Felipão é um técnico ultrapassado”, “Convocou mal”, “Fred não merecia vestir a amarelinha”, “precisamos aprender com os alemães e recomeçar do zero”. Ok, já sei.

O que torna a repetição mais insuportável é que vem da boca ou do teclado de muitos comentaristas do dia seguinte – que deve ser a profissão mais fácil do mundo depois da dos fiscais da natureza. Porque, dois meses atrás, não havia quem dissesse nada disso. Nem entre os especialistas de Facebook, nem entre os profissionais pagos para opinar – e que, eventualmente, entendem mesmo da coisa.

A coluna de Juca Kfouri na Folha de S. Paulo de 8 de maio, sobre a convocação, tinha o seguinte título: “Quase tudo certo”. Juca só tinha uma grande discordância entre a lista dele e a anunciada: Júlio César. Talvez tivesse razão. Se não fossem os milagres do goleiro contra o Chile, jamais saberíamos o que é levar de sete. Teríamos uma desclassificação à altura do futebol jogado – suficiente para passar da primeira fase, mas temerário a partir dali.

Dois meses depois, no dia da final da Copa, quando os jogadores brasileiros já tinham fracassado até no objetivo de consolação (o 3º lugar), a coluna de Juca tinha visão menos animada. “O Maracanã não merecia mesmo receber a seleção brasileira (…) não é palco para bedéis incompetentes e crianças mimadas.”

Voltando ao túnel do tempo para o mês da convocação, Paulo Vinícius Coelho, o PVC (que, pessoalmente, considero o melhor jornalista esportivo do país), afirmava que “a lista é boa” em sua coluna para o site da ESPN Brasil. Também dizia que o time era melhor que o de 2010. No dia 29 de maio, demonstrou mais otimismo, lembrando que os titulares de Felipão tinham 100% de aproveitamento. “Essa formação disputou cinco partidas e venceu todas, contra França, Japão, México, Uruguai e Espanha. Jamais a seleção brasileira estreou em uma Copa do Mundo com uma formação que tivesse jogado inteira tantas vezes.”

Dizer agora que Felipão é ultrapassado está mais fácil que fazer piada com os 7×1. Mas, quando a seleção venceu a Copa das Confederações, dando olés na Espanha de Iniesta – e despachando a Itália de Pirlo e o Uruguai de Suárez, em jogos inesquecíveis –, ninguém questionou o estrategista. Daniel Alves, Paulinho, Hulk, Fred… pareciam todos nomes certos nos lugares certos. E o time jogava por música.

Além disso, Felipão não virou nosso comandante por ser associado às vanguardas de Guardiola e Mourinho. Todo mundo lhe aplaudiu a experiência, a fama de motivador, o jeitão bronco e exigente. Após o anúncio de sua volta à seleção, Juca Kfouri escreveu: “Há motivos para acreditar que ele possa se dar bem em seu pragmatismo, estilo de jogo conservador, jogar para vencer e ponto”.

Quanto a termos Fred como centroavante, a grande maioria reclamou do “cone” sem apontar substituto. Porque não tem. Falta craque na camisa 9 do Brasil desde que o Fenômeno criou barriga e Adriano caiu na balada. Fred é bom jogador apenas, de bom posicionamento dentro da área e que faz gols quando recebe a bola em condições decentes. O que não aconteceu na Copa do Mundo, mas sim na das Confederações: Fred anotou cinco, sendo dois na final.

Sobre a necessidade de tirarmos uma lição da conquista alemã, é impossível discordar. E já indico, de cara, uma ótima matéria da revista Superinteressante (lançada antes da Copa!), que explica por que a Alemanha hoje é o país do futebol, com um planejamento de dar inveja, coisa de europeu mesmo. http://super.abril.com.br/esporte/alemanha-pais-futebol-752840.shtml

Só que, não se iluda, o Brasil não tomou de sete porque eles são ultraeficientes, enquanto a CBF é uma entidade maligna, que só quer saber de dinheiro, faz um calendário impossível e não investe na formação dos técnicos e dos dentes de leite. A Argentina foi vice, e a situação deles é outro filme de terror. Seus times estão falidos, e os principais jogadores da seleção atuam todos fora do país, como os nossos – Messi é mais espanhol que argentino.

Ah, e a Alemanha empatou com Gana e só passou às quartas de final ganhando da Argélia no gargalo de uma prorrogação.

O exemplo alemão serve, isso sim, para melhorarmos nossos campeonatos internos. Para que os clubes se fortaleçam, tenhamos melhores jogadores e técnicos atuando aqui. Para que vejamos bom futebol todos os anos, o ano inteiro. Com o resultado óbvio disso que é a volta do público aos estádios.

Não foi a falta desse espelho idílico que fez Dante parecer barata tonta diante dos atacantes da Alemanha, Fernandinho errar passes básicos na saída de bola, e David Luiz deixar Thomas Müller sozinho dentro da pequena área. Dante é zagueiro titular do Bayern de Munique, David Luiz é considerado um dos melhores jogadores do mundo. Se uma estratégia a longo prazo nos der outros David Luiz no futuro, estaremos bem.

O Brasil perdeu de 7×1 por uma combinação de…

1) time em má fase

2) descontrole emocional

3) erro de avaliação do técnico

4) adversário em dia iluminado

5) craque do time quase paraplégico

6) dia em que nada deu certo em campo (só quem acompanha futebol para além dos eventos quadrienais sabe que isso acontece)

Não necessariamente nessa ordem.

Óbvio que Felipão é ultrapassado. Fred é bem menos do que gostaríamos que ele fosse. E é lógico que o Brasil precisa de uma revolução na gestão de seu futebol – para ontem. Mas, acredite, podíamos ter vencido a Alemanha mesmo assim. O que talvez nem fosse bom.

Estivemos em situação pior em 1990, com um meio de campo acéfalo e um técnico obscuro e obscurantista (Sebastião Lazaroni). E a Argentina de Maradona só fez um gol na gente. E conta vantagem até hoje.

 

 

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