Tem jeito, sim

Caroline

A filosofia por trás da Transportation Alternatives é de que “as ruas são para as pessoas, não para os carros”. A ONG tem lutado por espaços públicos mais adequados e seguros para o deslocamento por bicicleta e a pé em Nova York, e tem conseguido vitórias importantes, como convencer o prefeito Bill de Blasio a adotar o programa Visão Zero – que promete literalmente zerar os acidentes de carro na cidade.

Entrevistei Caroline Samponaro, diretora da ONG, para a Revista CESVI. A seguir, você lê trechos da entrevista sobre o trabalho da T.A. na promoção de caminhos mais humanos para a mobilidade.

 

Quais são os maiores desafios de promover o ciclismo e a caminhada em cidades grandes pensadas para os carros?

O mais importante é conseguir uma mudança cultural. As pessoas estão sempre com pressa! Mas quando tentam ir ao trabalho de bicicleta pela primeira vez, elas se convencem: é conveniente e é rápido. Por outro lado, é fato que hoje há muitas pessoas com medo de tentar a bike ou ir a pé por conta do ritmo das nossas ruas. É por isso que diminuir a velocidade dos carros é tão importante. Se o nosso objetivo é uma rede de transporte sustentável, precisamos de mais pessoas pedalando e andando na cidade. Para isso acontecer, precisamos que os carros não corram, e precisamos também reconquistar o espaço extra que têm sido exclusividade dos automóveis ao longo dos anos.

 

No Brasil, há a ideia de que a venda de carros é muito importante para a economia. Como convencer os políticos de que menos carros nas ruas pode ser uma boa ideia?

Esse político deveria substituir uma filosofia que diz “o dinheiro é que importa” por outra dizendo “as pessoas é que importam”. Ainda assim, temos vários estudos que mostram que ruas com ciclofaixas e mais espaço para o pedestre são melhores para os negócios. Até porque são justamente os lugares em que as empresas querem abrir suas lojas. Grandes avenidas congestionadas e distantes do transporte público não funcionam para ninguém.

 

E como convencer os motoristas que amam seus carros a deixar o automóvel na garagem?

Dirigir na cidade é literalmente antissocial. É ruim para o meio ambiente, isola a pessoa e é frustrante, já que muitas vezes você mal consegue sair do lugar. A chave para que as pessoas façam escolhas melhores é tornar essas opções mais atraentes e seguras. Se o ônibus tiver uma faixa exclusiva e por isso andar mais rápido que o carro, as pessoas vão preferir o ônibus. Se houver uma rede bacana ligando ciclovias a estações públicas de locação de bicicletas e bicicletários, algumas pessoas vão tentar essa opção. Há deslocamentos de carro necessários e até bons para a cidade, como serviços de entrega, ambulâncias e táxis. Os motoristas desses veículos não deveriam ficar parados em congestionamentos por causa de pessoas que estão sozinhas em seus carros. Essas têm um luxo que ninguém deveria ter. Em Londres, as pessoas têm de pagar taxas se quiserem dirigir seus carros na hora do rush. Essa medida tem desencorajado muitas viagens de carro desnecessárias.

 

Como é possível imaginar que uma cidade grande como Nova York possa não ter nenhum acidente de trânsito, como prega o Visão Zero?

Precisa haver uma combinação de muitas estratégias diferentes. Não faz muito tempo, a média aqui era de uma pessoa morrendo por dia no trânsito. Nos últimos sete anos, a cidade lutou muito para virar esse jogo, e realmente houve uma queda expressiva nesse número. Ainda assim, anualmente cerca de 3 mil nova-iorquinos são feridos em acidentes, e no ano passado 268 pessoas morreram dessa forma. Precisamos intensificar o que tem dado certo e encarar a direção perigosa como a epidemia que ela de fato é.

 

Em São Paulo, temos grandes problemas de trânsito violento e de mobilidade também. Será que o Visão Zero seria possível aqui?

Passei algum tempo em São Paulo e tenho certeza de que zerar os acidentes no trânsito é viável. Vocês já têm uma grande vantagem, que são carros pequenininhos. [risos] Falando sério, acho que depende muito de vontade política. Mas será que vocês têm governantes que saibam de seu imperativo moral de dar segurança aos cidadãos? O nosso prefeito, Bill de Blasio, fez seu pronunciamento de adoção do Visão Zero sentado ao lado de pais que perderam seus filhos em acidentes de trânsito. O recado era claro: isso é uma epidemia, e a minha responsabilidade é erradicá-la. Ninguém deveria correr o risco de morrer indo para o trabalho por causa de um motorista irresponsável. É preciso que haja igualdade de condições entre carros, bicicletas e pedestres, e tanto a minha cidade como a sua têm as ferramentas para isso.

 

E você, como vai de casa ao trabalho?

Vou quase sempre de bicicleta. É um percurso de uns 10 quilômetros, e eu até passo por cima de uma ponte. Pedalar é uma forma muito gostosa de começar e terminar meu dia de trabalho. Quando não quero ou não posso usar a bicicleta, vou de metrô, que também é ótimo.

 

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2 comments on “Tem jeito, sim

  1. Ótimo posto Alê,’faz mais ou menos 1 ano e meio que troquei o transporte convencional pela bike, foi a melhor coisa que fiz, todo cidadão que cria coragem de pedalar alguns quilômetro diariamente se torna um cidadão melhor!

    O blog está ótimo, legal ver que o trampo deu resultado :)

    • Oi, Phelip. Pois é, também tenho uma bicicleta desde fevereiro – e estou curtindo muito. Só não vou com ela para o trabalho porque trabalho em casa. Hehehe… Obrigado pelo comentário. Um abraço.

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