O dia em que Senna virou canto de torcida no Morumbi

Senna

Não acompanhei tanta corrida do Senna. Sou daquele grupo envergonhado, que confessa falando baixinho que gosta mais do Piquet. Por muito tempo, o Senna tinha um carro melhor que o dos outros – era ele também melhor do que os outros – e aí largava na pole position e mantinha a ponta até o fim da corrida. No fun.

Mas provavelmente estou errado, já que o cara virou ídolo de milhões, até fora do Brasil. E o Piquet está aí até hoje, sem que as pessoas façam muita questão de lembrar que ele foi tricampeão também.

Mas a morte do Senna me emocionou para caramba. Aliás, não foi bem a morte em si. (Meu organismo nasceu incapacitado para reações dramáticas diante da morte de parentes queridos, imagine de um desconhecido…) Foi a reação que causou nas pessoas.

Mais especificamente nas dezenas de milhares de pessoas que estavam comigo no Morumbi, naquela tarde de 1º de maio de 1994, assistindo a São Paulo x Palmeiras pelo Campeonato Paulista.

Foi um clássico histórico, com duas verdadeiras seleções se enfrentando. Do lado deles, Zetti, Muller, Leonardo, Cafu, Euller, Telê Santana no banco. Do nosso, Evair, Roberto Carlos, César Sampaio, Zinho, Mazinho.

O São Paulo marcou primeiro, com Euller. Empatamos com Edílson. Eles marcaram de novo, com Muller. Empatamos de novo, com Maurílio (que tinha acabado de entrar, gerando um coro de “burro, burro…” dedicado ao técnico Luxemburgo, até que a primeira vez em que encostou o pé na bola foi para marcar o gol). Já no final, viramos espetacularmente, com um daqueles gols de falta do Evair que goleiro nenhum era capaz de evitar.

Já seria um jogo inesquecível pelos gigantes que combatiam em campo. (Ah, saudades de um Palmeiras que dava gosto de ver…) Mas o que não sai da minha cabeça até hoje foi um lance em que ninguém pegou na bola.

Pelo contrário, foi quando todo mundo parou.

Com 2 minutos de bola rolando, o juiz interrompeu a partida para fazer um minuto de silêncio em homenagem ao Senna. Jogadores crentes se ajoelharam, outros olharam para baixo, muitos se emocionaram.

Mas o melhor viria a seguir. Mesmo antes do cronômetro chegar aos 60 segundos de silêncio, vi (ouvi) algo que julgo impossível de se repetir: duas torcidas adversárias – inimigas, eu diria – cantando juntas, a plenos pulmões, os mesmos versos. Que se prolongaram por minutos hipnóticos, num abraço sonoro que eternizou aquele momento e aquelas palavras na minha memória: “Olê, olê, olê, olá… Senna… Senna!”

Senna não parou uma guerra, como fez Pelé. Mas foi quase isso.

 

 

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