O autógrafo do Bellini

Bellini

Nunca foi a minha cara pedir autógrafo. Porque não imagino que o nome da pessoa escrito pela própria me traga qualquer satisfação transcendente. Pode ser até do John Coltrane. Pode ser do Nick Hornby. Uma assinatura não me dá a ilusão de que o ídolo se importa comigo ou de que fui um coadjuvante passável em sua vida extraordinária. Gostava de ver assinaturas em cheques se isso significasse mais dinheiro na minha conta, mas hoje ninguém usa cheque. (Deixo dois na carteira para o caso de parar no Sujinho, da Consolação, que não aceita cartões.) E gostava de ver meu pai assinando qualquer coisa. Não porque seus acordos e contratos trouxessem algum tipo de vantagem à minha família – muitas vezes, foi o contrário. Mas porque a assinatura era bonita. E o jeito com que ele escrevia, com a mão meio dura, deixava a letra estilosa, um pouco curvada, um pouco espartana, de uma rigidez militar que copiei por um tempo.

Mas quando, coisa de 20 anos atrás, vi o Bellini numa festa de casamento, não tive ideia melhor do que pedir um autógrafo. O primeiro capitão de uma seleção brasileira campeã do mundo. O homem que ao erguer a taça com as duas mãos criou sem querer um gesto tão simbólico – ainda que tão sem artificialismo, tão dele – que ficaria para sempre como a identidade visual de um vitorioso, em qualquer esporte… Estava ali, sorrindo numa mesa a poucos metros da minha, entretido com canapés de carpaccio ou o petisco que fosse.

Pensei em carpaccio porque era um troço bacana nos anos 90, e eu comia quase toda semana. Hoje, no meio de tanto azeite trufado e hambúrguer de foie gras, pedir carpaccio no restaurante deve ser atestado de jeca. (Post-it: comprar carpaccio na próxima ida ao mercado.)

O problema é que eu não andava por aí com um caderninho de autógrafos. Se tivesse algum papel no bolso do meu terno alugado, seria o higiênico, que desse conta de uma eventual (provável) crise de rinite. Inventário possível dos itens constantes no meu traje de gala: chave de casa, carteira com o equivalente a 20 reais para o caso de me extorquirem dinheiro por um teco da gravata do noivo, dois bem-casados para comer em casa e o mencionado papel antirrinite. Não haveria chave de carro porque eu não dirigia. E ninguém tinha celular naquela época. Eu, pelo menos, não tinha. Se o encontro fosse 20 anos mais tarde, é possível que Bellini estivesse posando constrangido no meu instagram.

O gesto mais copiado por conquistadores de taças em qualquer esporte.

Diante da absoluta falta de material adequado à assinatura do zagueiro, recorri ao que tinha à mão. O sousplat de pano. Para quem não juntou o nome à peça, sousplat é um tipo de prato maior que o prato, que tem a nobre missão de poupar a toalha de mesa dos respingos do seu filé ao molho madeira. Ou seja, é o primo rico do jogo-americano. Não sei se o sousplat poderia ser levado para casa, como lembrança do casamento. Mas a organização do casório abriria exceção a um sousplat com a assinatura do primeiro capitão campeão. Não sei, não perguntei. Incerto sobre as restrições e o código de conduta daquela comemoração, levei o sousplat até Bellini. Ele pareceu feliz por ter sido reconhecido – a fase em que sua foto era arroz de festa nos cadernos de esportes tinha ficado três décadas no passado.

O caso é que sou ótimo fisionomista. Minto: sou um prodígio de fisionomista, poderiam fazer um quadro do Acredite se Quiser comigo. Vejo um cara com quem só tive contato quando disputávamos bolinhas de gude aos 11 anos e o reconheço na hora. Percebi, sem outras indicações senão a fisionomia, que o quarentão Wil Wheaton que faz ponta em The Big Bang Theory era o principal ator mirim do filme Conta Comigo (1986). (Depois me disseram que nesse intervalo ele faria sucesso também em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, que nunca vi.)

Enfim, Bellini reagiu com cordialidade e até certa satisfação ao meu pedido de autógrafo. Riu do sousplat, claro. E eu fiquei contente pela oportunidade de insubordinação aos desconfortos daquela ocasião formal – em que eu nem conhecia os noivos, em que o terno alugado me deixava sem jeito, em que só o espumante morno me tornava menos chateado de estar ali.

No dia seguinte, meu pai me cumprimentou pela façanha do autógrafo, que tinha o sousplat branco como prova material. Bellini era uma referência para ele, mais que para mim. Ele tinha 17 anos quando ouviu no rádio sobre o beque do Vasco levantando a taça da nossa primeira Copa. E 21 quando Mauro foi o substituto de Bellini – na zaga e na faixa de capitão – e repetiu-lhe o gesto campeoníssimo. Mas o caso é que não ligo mesmo para autógrafo. O que importava era sequestrar aquele adereço de mesa e falar com Bellini, era sair um pouco do que se esperava do comportamento “finjam que eu não existo” de um convidado de outros convidados.

O sousplat resistiu semanas bagunçando as coisas em cima da geladeira. Até que minha mãe perguntou se eu iria guardá-lo de uma vez por todas, já era hora. Respondi que não. E a assinatura do craque se juntou aos restos de arroz, feijão, bife e batata frita no lixo da cozinha.

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